sábado, 26 de setembro de 2015

Madrugadas


   Sr fulano de tal...


   Gosto de falar das madrugadas que passo acordado. Falo nelas sem falar o que se desenrola nelas.Como elas mesmas, escuras, ilegíveis e algumas elegíveis. As noites foram feitas para cada um e as madrugadas, são o canto mais profundo da noite. Já não suporto aguardar uma manhã numa festa patrocinada por uma bebida qualquer. Gosto daquelas madrugadas em que posso finalmente pensar, ouvir musica e ficar, assim, pendurado num silêncio que parece eterno mas apenas é breve. Os dias trazem-nos crise e trabalho. As madrugadas traz-nos os sonhos, as motivações...as madrugadas pertencem-nos. Vai de cada um...poderei passar por vadio que anda a altas horas. Poderei apenas só mais um que gosta do silencio que a madrugada traz. Ouvir os sinos de várias igrejas, batendo horas a despique, deixando perceber que há terras ainda uns segundos atrasadas no tempo: os suficientes para se notar o atraso. Gosto de estar aqui, neste espaço confortável, apenas espólio móvel me rodeia. E é confortável. Uma madrugada...mais uma madrugada que me perco a ouvir álbuns no youtube, de principio a fim, ouvindo faixa a faixa, ora com aprovação, ora com sacrifício. A noite pede-me algo mais calmo...sabe bem entrar desperto na madrugada.Há pessoas que passam as madrugadas acordadas, dormem de dia...sabem que nos hospitais morre-se de noite. A morte vem de noite e então vigiam a vida, esperam o dia seguinte para dormirem e dormitarem. As madrugadas servem para o que cada um quiser fazer dela. Ás vezes até dou por mim a pensar ao que as madrugadas já chegaram, que até já os ladroes se aproveitam da sua nudez.

   As madrugadas daqui a pouco serão compostas de chuva, ventos e ruídos em arrasto de lixo ou objectos mias leves que vão na dança do vento. Serão compostas de velhinhos acordados com o medo que a morte os chame pela noite e não de dia, no conforto e na presença de um ultimo olhar mesmo que já vazio de vida. Neste momento particular lembro o meu pai...morreu num dia de primavera, num 25 de Abril. Olhou-me e esticou-me uma mão. Percebi que queria encostar a cabeça ao meu peito e adormecer nele. Assim o segurei e fiquei com ele a olhar a janela de onde ele via uma serra. Fiquei ali a acariciar-lhe o cabelo e a chorar em silêncio. Só ele sabia que aquele era o seu momento. Não dormia de noite...dormia de dia quando eu ou o meu irmão chegávamos a cada manhã, logo ao abrir a visita. Dizia-me que não dormia de noite porque era nesse período que a morte vinha busca-los no silêncio e no vazio de enfermarias. Morreu ao fim desse dia...foi o dia mais triste da minha vida até agora. Nunca mais esquecemos a dor que sentimos quando em mãos carregamos o caixão onde vai o corpo do pai ou da mãe. Sabemos que a partir desse dia estamos mais sós que nunca.

   Salta do tempo o Outono, noites extensas, madrugadas maiores...quem se estende comigo no manto negro das madrugadas sem medo que o dia seguinte não compareça? 
 

sábado, 15 de novembro de 2014

Aromas ao entardecer (na estrada)




   Sr Fulano de tal...


   Rolámos já sobre folhas douradas que jazem esmagadas no asfalto da estrada. Atravessámos já os mais coloridos cenários que só os anos passados permitem ver...e cada Outono é sempre novo, cada Outono é sempre virgem...cada Outono é mais um aquecimento para o Inverno, como que exercício gradual de habituação ao que há-de vir. Os dias demoram menos a passar, tornam-se longas as noites. Gradualmente despedimo-nos do sol, já por isso deixei os meus óculos de sol em casa, até que o sol volte, e uso uns que são os eternos suplentes. Dois vidros negros numa armação tipo Stalone Cobra. São cinzentos os dias, um raio de sol é uma dádiva, a chuva avança, a chuva incomoda, perturba...mas há algo. Há algo no ar quando cai a chuva. Algo tão...como se fossemos sua pertença.
   Outono, dias confusos...mudança de horários. Acorda-se de madrugada para ás 3 ou 4 da tarde ter a esperança de encontrar lugar onde parquear o camião em segurança em lugar devido. A chuva que cai chateia-me. Não tenho espaço no reboque, reboque vai selado. Chove copiosamente e eu tenho que comer. Agachado, debaixo do reboque desenhei na panela o melhor arroz jamais servido na trincheira. Deixei a loiça por lavar, arrumei e fui, sob chuva tomar café.
   Gosto de tomar o café sossegado...gosto de ir á área de serviço e tirar um café portátil naquelas máquinas subtilmente colocadas em lugar estratégico para nos encher o olhar. Gosto de dar uma volta á loja, ir bebendo cada golo do café sempre que algum preço me surpreenda. Sem dar por isso desaparece-me o café. Passeio um copo vazio não. Vou saindo...passo a zona dos cafés. Avanço para a porta, abraço-me no casaco como quem espera frio...e lá vem o cheiro. Aquele cheiro que nos faz sentir pertença de algo tão maior que os homens...
   Sou apenas mais um vulto escuro que atravessa o parque. O céu não ilumina, não há além...no nevoeiro não deixa ver o ali e o acolá que costumam estar ali a metros. O quente sabor do café esvai-se no frio que respiramos. Não sinto oxigénio...sinto frio apenas. Entro na Xica...aninho-me no lugar do morto, acendo um cigarro, deixo-me vencer pelo cansaço. Já não sou eu que ali está...recomeça a chuva e aquele cheiro que me diz de quem sou pertença.
   A chuva em terra aquecida, aquele cheiro da terra arrefecida e que ferve...que se solta e se espalha no ar. Vale a pena o momento. É Outono...não ouvimos. O Outono não precisa de nós com os 5 sentidos. Não levo audição para o Outono. É mais de aromas ao entardecer, aromas em céu cinzento como estufa que fomenta o odor. O frio que respiramos vai tão fundo que cada suspiro tem o tamanho de constipação possível. Mas com o ar frio segue o cheiro da terra evaporada, e desce, vai com o frio vencendo-o já mais lá dentro, onde o frio percebe que não sou feito de frio mas apenas pertença da terra. Nem as últimas passas do cigarro me despertam do que estou a sentir. Tenho um papelão a proteger a entrada da chuva pela janela aberta, porque não sou feito de chuva.
   Não se ouve o Outono...apenas se cheira, apenas se vê. Nem os pássaros cantam nem a morte das folhas são ais ou gritos. Caiem mudas...amarelas e castanhas. A Xica desfila em passeios de Outono.
   O verde que resiste, o amarelo que existe e o castanho que não desiste, trazem uma densidade de informação de cor ao cérebro que me limito a vê-lo como um todo, global, sem definir o que é verde, ou amarelo. Se o sol resolve aparecer pela manhã, as gotas de chuva que ficaram dormir na palma da folha, parecem pequeníssimas pepitas douradas, que pingam já despertas numa dança suave com o vento. Estradas nacionais, departamentais...a cada curva em zona rural os olhos são engolidos pelo que conseguem ver além da berma. O cavalo que corre louco ao lado, as vacas que olham á passagem da Xica. O cão que ladra e o aceno dos putos a ir para a escola a mendigar uma buzinadela, como isso os faça sentir respeitados e parte da outra parte da estrada. É nesses dias dourados de Outono, onde o verde é dourado e o castanho também. Que bom ter o privilégio de definir os contornos das cores, o corpo delas, a forma como pintam o mundo que tenho em redor. E é a morte de tanto...a morte de milhares de folhas que nasceram folhas e morreram folhas...tão anónimas e tão folhas que a maioria nunca esteve sob quem mirada de olho humano. Vive de mão dada á mãe, larga-a apenas para morrer. Que bom sentir e o cheiro da terra. Ouvir apenas silêncio. A chuva parou...arrasto luz para as malas do reboque, lavo a loiça e arrumo-a. Volto ao bastião-mor das minhas forças em retirada. Os ouvidos despertaram...sou invadido de sons característicos de parque. Motores de camiões-frigorifico a rasgar a noite, aquecimentos de parque num perpétuo bzzzzzzzzz adormecido. Pelo vidro do lugar em que trabalho, entra-me o cheiro a mijo encardido no asfalto do parque, o cheiro do gasóleo queimado nos aquecimentos de parque. Um camião inquieto que se procura parquear num qualquer cantinho, para trás, para a frente, mais motor, mais descargas de ar de travões ao manobrar...Nesta minha janela da esquerda não há Outono nem há cheiro a estrume e terra molhada que o sol evapora. Há apenas ruídos de dias de Outono.
   Fecho-me...o meu Outono é já a seguir, também eu me dispo e me deponho na cama. Como arvore desfolhada que se deita para que volte mais tarde a ser digna de folhas. Também eu procuro ter o meu corpo para vestir no dia a seguir...Ligo o rádio, há um fio de música que passa. Não a ouço, cheiro-a e respiro-a...e bzzzzzzz.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Tarde encoberta com sol

  

  Sr Fulano de tal
  
   Maldito despertador.Adormeceste-me de novo e logo hoje..

   Inicio desta forma mais esta diarreia mental que me escorre em forma de cordel para a ponta dos dedos. Os dedos, esses culpados. Inicio culpando o despertador, apenas no sentido figurativo, porque na verdade dois telemóveis não me arrancaram hoje do sono como lhes tinha encomendado ao inicio da madrugada para o fazerem. Ouvi-os e pensei instintivamente que não era hora de estar disponivel para chamadas com aquele toque e lançei o braço ás escuras, á direcção do som. O meu polegar conhece bem a tecla vermelha, mesmo cego vai lá. Passados dois minutos outro "pi pi piiiiii". Encontrei-o hoje de manhã no frigorifico. Devo tê-lo metido lá sem perceber e dormi. Aquele sono sentinela, que procura ouvir qualquer ruído perturbador apenas para ter motivo de se revoltar sei lá com o quê. Um motor a arrancar desperta-me...lembra-me que estou no meu camião. Deixara-me dormir. Seleccionei um toque ao despertador de telemóvel ontem ás noite. Pensei que não haveria nada como acordar com aquela música e fiei-me na Virgem e desisti. Já não estava no mundo dos acordados...adormeci com a musica de tão bem que me fez acordar com ela.

   Levantei a cabeça, acendi a luz e olhei para o relógio de bordo. Acontecia ás 05:15 as minhas 04:00. Estava atrasado 01:15 minutos em relação ao mundo, ao meu mundo. Vesti-me tranquilamente a ouvir Madredeus. Aprontei-me...sai. Estava na vida e estava no mundo, atrasado mas estava. Percorro quase ás escuras as passagens entre camiões de homens sós que se ausentam por horas do mundo, entrei no bar e disse bom dia. Em Português porque acredito que a boa educação, seja em que lingua fôr, se faz pelo menos notar. Recebi em Castelhano três pares de "buenos dias", enquanto me dirigia aos lavabos. Voltei ao bar...bem guardado por sinal. Conto sempre com uma parelha de Guardias Civis a tomar o café de fim de turno. E lá estava um par de fardas verdes. Disse bom dia e fiquei ali, ao lado deles a beber café. Solto o telemóvel, escolho uma cançao de Quinta do Bill e ouço-a baixinho, canto-o baixinho e bebo o meu sumo e tomo o meu café a saber que o meu dia será bom. Pago, não refilo, desejo de novo um "bom dia a todos" e saio, a ouvir Jorge Palma, num tema chamado Bom Dia que simplesmente me leva do chão e me levita conscientemente para um dia que descubro aí, aguardava brutal. Pelo regresso escuro aos minimos da "Xica", penso que desde que o Cristiano Ronaldo veio para Espanha, o Espanhois começaram a consumir mais lingua Portuguesa.
Esqueci-me do Castelhano de "la vindimia" do famigerado Carlos Queiroz aquando treinador lá da equipa grande do Burgo. Sorrio e dou ao arranque. Vamos Xica...vamos colar ao mundo, leva-me, leva-me contigo no asfalto aos locais onde queremos chegar. Objectivo "Trabalhus libertus" antes das 12:00 começa a ser possivel. Gasóleo para a Xica, café para mim...já oiço a Antena1 e fiquei admirado de não ter percebido durante toda a manhã o nome do lider da oposição. Nem sei quem é sinceramente, mas era bom para infriltar nas trincheiras inimigas, possuidor nato do talento de passar totalmente como cara familiar dos "encurralados". Olho a Xica, ainda me pergunto como é que ela, tão Princesa, ainda me atura as pancas. Se calhar ela gosta deste espirito, de ter um inquilino que a deixa de 4 piscas num cruzamento e sai disparado em direcção aos correios colocar uma carta nos correios Franceses. Como quem rouba, saio a correr e nem quero ouvir as buzinas...dai a 1 min estou de volta e um sorriso e um pedido de desculpas com o meu Francês "de Lá Vindime". E vamos a rir durante uns instantes. Salto para ela, voltámos ás músicas do Quinta do Bill e do Palma, piscamos o olho e vamos embora. Vamos parar na fronteira para a pausa. Quarenta e cinco minutos, mantive-me tranquilo. Contemplei o céu azul que me cobria, o sol...o Sol em céu aberto. Já não via isto desde alguns dos dias de Verão, e aguardei.

   Passamos o arame, a alegria está de volta. Paragem na BP para comprar o maço Ventil do costume. Sei que me faz mal, mas diz que morrer cheio de saúde não faz nada bem. Começo a descer e o céu cobre-se.

   -Fodasse- pensei, se calhar até disse mesmo...não sei. Mas sei que foi essa a expressão. Espanha parece ter as contas com o clima saldadas, e nós não. Como se os raianos de Salamanca varressem as nuvens para o nosso quintal. Nem ao S.Pedro se paga. Esta "coisa" está mesmo mal. Haja travões, a A25 é a descer todos os Santos empurram, se calhar "pegados" a ver qual me chama. E empurram...descemos sinuosamente a Guarda. Velocidade conferida, dentro do limite, piso seco, vamos Xica, esta estrada é tua...cheira-a, sente-a no teu piso, vamos, falta pouco. Faltam 5 minutos para o meio-dia. a Xica está lavadinha, parece um pedaço de seda branca a corar ao sol. Duas nuvens afastavam-se a deixar passar-lhe um pouco de sol. Estamos actualizados com o mundo. Xica até logo...vou ali no espada veloz porque agora não há despertador que me adormeça.

   Talvez me sinta mesmo o mais feliz vagabundo do mundo. Mesmo que o as nuvens cubram o infinito, não quero saber, meto óculos de sol porque sim, talvez fosse melhor tira-los, mas a teimosia em querer um dia de sol não se tinha acabado na descida da Guarda. Não chove, e se não chove está bom tempo. Pus gel no cabelo, não sei porquê mas acho que me omite ali dois cabelitos brancos... O Asta Veloz já não consome cds há muito. Desde que comecei a ter de ir de paragem em paragem ver os contactos da caixa de cds, começei a olhar aquela caixa como algo que estorvava. Um dia arranquei-a á chapada e levei-a para casa a ver se ao menos dava em torradeira, para ler umas torradas...Garanto-vos que se as torradas saissem tão quentinhas como saíam os cds , não seria tão má ideia assim. Rádio...ouço o que o arame que faz de antena me dá. Já agora um aparte para quem conhece o trajecto...faço a estrada de casa quase até ao alto de Montemuro a ouvir as ranchadas e telefonemas dos ouvintes que contam os nomes das suas ovelhas. Aquilo nem me atrai nem me distrai, apenas me passa de lado para lado enquanto penso outros coisas. Sigo para a minha tarde livre. Arranjo onde amortalhar o meu tabaco, encontro em que o diluir, fumo, óculos, cançao do Bandido do Vitorino e cabelo cativo do gel. Acendo luzes, a tarde escura mantem-se, mas o meu dia de sol continua a entrar-me pelos óculos e pelo corpo. "Trabalhus Libertus" tão bem sucedido...

   O Sol...e sol acontece mesmo em dias em que não existe sol em Portugal. O Governo não paga sol ao S.Pedro, também não me deve compensar as tardes tristes que passo, por isso, deixa-me aproveitar os óculos de sol, mesmo que chova. Quero que se foda a gripe...desde que o Ébola não se aloje aqui.

   Hoje sou realmente um vagabundo educado, um vadio socialmente educado, mas feliz. Sou o Dó que o Si sustenido quer ser, sou o canto livre de uma estátua muda, sou o suspiro de liberdade, sou algo que não sei, mas sei que sou e sei que vou para onde o sol que encontro me brilha.

   Que se fodam as nuvens...quando tem de haver Sol na vida de um Homem, ele tem de ter direito a ele, mesmo que seja atravês de uns óculos escuros em dia escuro mas de ideias bem claras. O dia não acabou, não tem de acabar...fica na vossa tela dos olhos aquilo que terá sido, como eu agora confesso, ás 17:30 que não sei o que vai ser...Não sei. O Sol dirá. E Eu farei. Sei que o fim do dia acabará no despertador de novo, por isso, carrego em mim o despertador...eu vou definir o fim do dia. E o Sol também.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Tons de Outono...



   Sr fulano de tal...

   Chegam os dias frios de Outono. Os que arrefecem o exterior e os factores que me fazem querer arrefecer um interior já sem qualquer resistência a aguentar, a suportar as quebras repentinas de um estado de ânimo que baila com o vento que vai arrastando folhas. Chegam os dias cinzentos no seu interior, coloridos a cor de Outono no seu exterior. E eu não insisto, eu desisto. Tocam buzinas em tons de morte...caiem as folhas em tons de suicidio.

   Haja a dignidade de sairmos de palco assim que termina o papel de figurante que somos.


  Tristemente ao som de...
   

sábado, 4 de outubro de 2014

Incêndio, chuva e água na sarjeta




   Sr Fulano de tal...

   Fogo. Incêndio em mim, chamas, mas não ouço... Fogo, fumo que se dilui no que somos, fumo que me escorrega dedos acima e me vai dar ás labaredas que se soltam de mim. Chamas, chamo, brasa, carvão...ardo, incêndio, fogo posto. Eco, explosão, palavras de fogo, palavras flecha, cirúrgicas missivas, queima, não penso, executo, palavras, ocorrerem-me as palavras que me rasgam a pele e brotam, negras e frias como rio de gelo que nasce de algo que se acabara de formar. Incêndio, control, descalço no rescaldo, queima-me o chão que piso, perdi os trilhos desta floresta, chamas...não sinto. 
   Cinza, negra densidão, recantos queimados em terra pisada e rasgada e espalhada. Fumo, falta visão, espreito, não vejo o amanhã, nem o 5 minutos adiante, estico braços, árvores...onde estão as árvores? agarro-me a cinzas de outros incêndios. Chamo, fumego...incêndio, arde, queima, rasga, flechas, estupidez, burrice, combustao: eu. Frio, negro, vazio, escombro.
   Chuva...tempo, Vento, água...acalma-me o nucleo. Lava, escorre lava no meu corpo, sem rios, sem veias sem nada...apenas um varrer de fogo, uma exéquia fria vergada ao poder da água da chuva. Tempo, dias , palavras criança, abraço, rebelde, com medo...chuva. Vejo-me na chuva...vejo pedaços arrastados, lanco-lhes a mão mas eles, fraquinhos, não me agarram, não ficam no hoje. Não os consegui agarrar...eram pedaços queimados do passado e eu tento salva-los mas eles não tem força. Revejo-me na chuva, fio de água que levemente leva tudo, vejo-me ir tambem, consigo agarrar alguns pedaços de mim desse resgato de água de lavagem, água de passagem... Remorso, tremor arrependido, muralhas ao alto, fecho, silêncio, pólvora e palhetes, fecha, deixa ficar, junta lenha, acrescente papel, pólvora...junte água fria. Fogo nulo. Frio, água, chuva...valeta.
    Corro, sobressalto em mim,  acordo. Acordo sem ver se tenho os olhos abertos.  Os dedos não fumegam, os pés não ardem, o chão ambulante que piso é o mesmo. Senti...sem ti c.huva, não estou molhado...água, golo de água. Luz, uma pequena luz para que veja e confirme que estão ali os pedaços inconsumíveis de passado a migrar. Luz ténue...sinto os meus olhos abertos e adormeço-os. Deixo-me render á cama, pensar que somos incêndio, sou incêndio e masmorra, abençoado com a calma de um trovão e tempestade a cada explosão. E se fosse assim? lá  E imagino um pequeno fio de água que passa, lento e sereno, ausente do hoje. Vejo pedaços de passados seguir nesse curso de água de cinza lavada, cantos de paginas felizes que deslizam calmamente rumo á sarjeta. Não lhes estico o braço nem a mão, não há em mim um Duque da Ribeira que se atire a essas águas em curso final...elas não pedem perdão, vão calmas e resignam-se de ir para um mar tão sossegado onde desaguam as águas calmas que sou depois das fases de revolta. É lenta a marcha do meu corpo a acompanhar esse pequeno rêgo de água que escorre vagabundo para a sarjeta. Não os ignoro...vejo-os ir de vez mas é um funeral peculiar, o corpo presente sou eu. Acompanho até que os meus olhos parem sobre a grade da sarjeta, o crivo final, portas de um inferno escuro. Vejo-as cair uma a uma, em paz e felizes por as ver ir. E Aguardo...fica sempre algo maior preso na grade, algo maior que resiste á passagem de coisas mais pequenas em enxurrada mais impaciente, algo que se recusa a largar-me a ponta do casaco do dia de agora. 
   Parou...a água parou. o fogo que me ardia extinguiu-se. A chuva que condensava apagou-me, lavou-me, levou tudo...menos a coisa da águia da sarjeta. Luz...não derreteu. Incêndio, chuva, água de sarjeta...tudo suportou. Coisa, relíquia que se guarda em cofre migratório que recolho do mar que sou...em chamas.

   


   

sábado, 20 de setembro de 2014

Não sei...Eu sei lá?



Sr fulano de tal...


   Deslizo na estrada que me passa sob as rodas. Todos os sons e ruídos em breve se tornam num silêncio, vazio. Passo horas sem ouvir nada, horas em que os sons giram , os ruídos rasam os ouvidos, mas fingem não me ver e passam, sem me invadirem. Encontro o mais profundo silêncio enquanto conduzo, perturba-me a calmia da noite, perturbam-me as vozes nocturnas que nascem no meio da noite quando apenas tento dormir embalado pelo rádio que depois de uma hora, adormecerá também. Há uma cortina que se fechando, transforma tudo. o habitáculo eixa de ser a cabine, passa a ser apenas o único local de mundo quando o Chão Nosso me falta sob os pés. Não sei se tenho mais mundo para lá das vidraças da Xica enquanto, silencioso e mudo, rolo pelas estradas que desafio, ou se encontro mais universo oquando deixo de espreitar pelas vidraças e isolo o habitáculo do mundo. O inverso do mais fantástico Teatro que mostra o mundo quando as cortinas se abrem. Eu tenho o meu mundo e o meu universo ali, em pequenas coisas. Uma viola, uns cadernos para escrever, livros para ler, lápis para desenhar, filmes para ler e o telemóvel que me liga a outros mundos. É ali, de cortinas fechadas que encontro a paz de pensar. De sentir e lembrar cada palavra, cada sorriso, cada expressão bela. De cantar, de desenhar, de poder estar comigo mesmo sempre no mesmo sitio e ao mesmo tempo em locais diferentes. Pergunto-me: Porquê?

   Ansiedade. Há um espirito de missão em cada viagem, tenho a minha função que não pode falhar no processo que envolve cada viagem. Cada descarga é um alivio e cada espera intranquila por saber que novo destino me espera. A ansiedade do regresso a Portugal apodera-se de mim. Pensar que cada dia é menos um dia que falta, pensar que cada km em direcção a Portugal é mais grato porque me leva ás raízes, a quem é importante para mim, leva-me a estar em lugares onde me sinto confortável. O instinto de ao passar Salamanca procurar a Antena1 para ouvir música em Português, para me sentir , ali já, numa antecâmera de fronteira onde já corre o vento de Portugal. Aponto á luz, a mente leva-me pelos mesmo caminhos. Parque, chegamos ao parque. O trabalho fica por ali...solto-me, deixo-me ir, há uma bussola em mim em que o norte me engana. Carro...estou no meu carro, rádio, preciso de rádio. Auriculares, água, tabaco e isqueiro, tudo pronto. Vou, mesmo no meu carro dou por mim a 90. Tenho tempo...se não tivesse faria como tanta vez fiz entre sinuoso percurso a arriscar demasiado. Vou com tempo, sem pressa. Sei que me levo para casa, mas um vazio se arrasta sempre comigo. Acelero, gosta da fase de subida á Serra de Montemuro...distraio-me dos pensamentos e coloco-me na estrada. Um prazer conduzir, assim, numa espécie de subida de seda para o lugar onde os olhos encontram, bem lá em cima, a imensidão do que o olhar consegue ver. Tudo me é cada vez mais familiar, passo a barragem do Torrão e eis-me: o sitio ao qual pertenço. brotei desta terra...Mas a cada noite, são menos as horas que durmo. Talvez a cama seja demasiado grande. Talvez o meu quarto me seja estranho por me faltarem aqueles objectos referencia, aqueles que me rodeiam por meros objectos que sejam. Pergunto-me: Porquê?

   Talvez seja a pergunta que mais faço a mim mesmo. Talvez me irrite comigo mesmo por evitar sentir o medo de uma resposta que me desse, ainda que mais racional do que emocional, mas tenho a certeza da resposta que deixo como gorjeta na minha banca de auto-questionários. E essa resposta está no título deste texto que estes dedos a escorrer de fumo, escreveram. Está no título...porque ás vezes as melhores respostas estão no inicio de tudo.


Escrito ao som de...